Fortaleza em Fotos e Fatos

terça-feira, 21 de maio de 2013

O Dia em que o Cine Moderno Fechou


Estranha coincidência: o Cine Majestic desapareceu sob chamas na noite do ano novo de 1968, e hoje o Cine Moderno encerra suas atividades com o filme “Paris está em Chamas?”  em cartaz.

Manchete do Jornal no dia do encerramento do Cine Moderno

A chama da saudade vai se acender nos corações de milhares de fortalezenses que contam acima de 50 anos de idade quando lerem esta notícia. O Cine Moderno foi  na década de 30 o ponto de convergência, de encontro, da sociedade  de Fortaleza, lugar chique, elegante. No seu hall ou na sala escura surgiram muitos amores e aconteceram momentos de alegria e mesmo de tristeza na vida daqueles fortalezenses que viveram aquela época suave e romântica de uma cidade ainda provinciana.

Um Pouco da História


Construído por iniciativa de Plácido Carvalho com o fim específico de uma casa exibidora de filmes, o Cine Moderno foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1922, dentro das comemorações do primeiro centenário da Independência  política do Brasil. A exploração do cinema ficou a cargo do Sr. Luiz Severiano Ribeiro, fundador da Empresa Ribeiro, hoje o magnata da indústria e do comércio cinematográfico em nosso País.
“Carmem” foi o filme que inaugurou aquela casa de espetáculos, que hoje fecha as portas após 46 anos de atividades, exibindo o filme “Paris está em Chamas?”  O prédio foi construído por Luis Gonzaga Flávio da Silva, ainda vivo, com 85 anos de idade , construtor também do Palace Hotel, do Majestic, do Palácio do Plácido e do Banco Frota Gentil.
Nova Era


Durante oito anos, o Moderno apresentou filmes mudos animados por um piano perto do palco. As sessões eram noturnas (duas por noite) e o preço do ingresso custava custa 1 mil reis (equivalente hoje a NCR$ 1,00).  Em 1930 o Moderno lançou em Fortaleza o cinema falado, com o filme “Broadway Melody”, com Charles King e Bessie Love. Somente há dois anos esse cinema passou a adotar o sistema de exibição em Cinesmacope. 


Um dos filmes que fez maior sucesso no Moderno foi “O Rei Vagabundo”, com Jonette Mac Donald. Até 1940 quando foi inaugurado o Cine Diogo apresentando o filme “Balalaika”, o Cine Moderno liderou em nossa capital, durante 18 anos, portanto, a vida social noturna de Fortaleza. Suas soirées eram sempre frequentadas pela alta sociedade de nossa capital, todos com suas melhores roupas e vestidos num verdadeiro desfile de elegância.  Nesse longo período, o Moderno foi o que o Cine São Luiz (inaugurado em 1958), representa hoje para a nossa sociedade, ou seja, o cinema da elite. 


Cinemas Desapareceram

Nos últimos dez anos quando a população de Fortaleza duplicou, os cinemas, ao contrário de irem aumentando, foram desaparecendo. Assim é que deixaram de funcionar os cinemas Rex,  Ventura (na Aldeota), Centro, Majestic, Nazaré, América, Mecejana, e agora, o Moderno.  A cidade conta atualmente com apenas cinco casas no perímetro central; São Luiz, Diogo, Samburá, Art e Jangada.  Esses cinemas, a maioria de péssimas instalações e oferecendo pouco conforto aos seus frequentadores, são óbvios, insuficientes para atender ao publico, ocorrendo sempre superlotação. 

 O Cine-teatro Majestic-Palace encerrou as atividades no mesmo ano do Cine Moderno

Destino do Moderno

O prédio do Cine Moderno foi vendido ao Sr. Edson Queiroz pelos herdeiros de Plácido de Carvalho ao preço de NCR$ 400 mil, devendo ser entregue ao novo proprietário dentro de trinta dias.  O Sr. Edson Queiroz ainda não definiu como utilizará aquele imóvel, se instalará uma loja de eletrodomésticos ou se construirá um edifício.
Algum tempo depois, no mesmo ano de 1968, o prédio foi demolido - grifo nosso.

Reprodução de reportagem publicada no Jornal Correio do Ceará, edição de terça-feira, 21 de maio de 1968. 
fotos do Arquivo Nirez, do livro Tela Prateada e do Jornal Correio do Ceará 

sábado, 18 de maio de 2013

Os Bondes e o Passeio Público

Rua Major Facundo, início do século XX

Três anos após ficar paralisada, acuada e enlutada pela peste negra da epidemia de varíola, Fortaleza ressurge nos anos seguintes, década de 1880, repleta de impactantes novidades, retomando com renovada energia o ritmo de seu processo de modernização. Tão logo a seca e a varíola encerraram seu ciclo de devastação em 1879, de pronto no ano seguinte, a população pode tirar o luto, voltar a sorrir, e a passear por dois presentes que a cidade recebeu e que  causaram sensação: os bondes e o Passeio Público.  Inaugurados em 1880, os novos equipamentos reorientaram os usos e costumes nos espaços públicos.

Os primeiros bondes puxados por burros surgiram em Fortaleza no dia 25 de abril de 1880, num empreendimento de propriedade do Cel. Tomé A. de Mota, denominada Companhia Ferro Carril do Ceará.No inicio eram 25 bondes, cada um com capacidade para conduzir 25 passageiros, distribuídos em cinco bancos. Eram veiculos pequenos, modestos, adornados com cortinas que protegiam os passageiros do sol e da chuva.

Os bondes puxados a tração animal vieram para suprir a necessidade de um meio de transporte coletivo para uma cidade que crescia em espaço e em número de habitantes. Como à época era de um capitalismo que impunha um ritmo veloz de trabalho e produção, os bondes serviram de trunfo para a exigência patronal por assiduidade e pontualidade dos trabalhadores. Por outro lado, os bondes requerem maior extensão de calçamento, reduzindo o areal que tanto incomodava as pessoas e dificultava o tráfego de veículos. Por conta do calçamento de ruas, os moradores puderam recorrer, com mais conforto, ao hábito de sentar em cadeiras nas calçadas ao entardecer.
O novo equipamento também contribuiu para a valorização imobiliária das ruas em que passava, além de ter visto nascer um novo costume: o flerte entre os passageiros e moças que se postavam às janelas, para ver o bonde passar. 

 O trânsito de veiculos e pedestres na antiga Rua Formosa em 1910
 
O Passeio Público, por sua vez, surgiu para  satisfazer o desejo por uma área exclusiva de lazer público que outras grandes cidades brasileiras já possuíam. Deveria ser um espaço ajardinado, arejado, reservado apenas para a fruição daqueles belos tempos, onde o footing (passeio a pé), o meeting (encontro entre pessoas) e o flert (paquera) pudessem ser aprazivelmente praticados. 


O Passeio Público foi edificado no antigo Campo do Paiol, depois denominado Praça dos Mártires em homenagem aos cearenses que lutaram na Confederação do Equador e que ali foram executados. Sobranceiro ao mar e bem arborizado, o logradouro foi murado e decorado com estátuas representando divindades mitológicas gregas, além de canteiros, coreto, café, passarelas pavimentadas e longos bancos. Atração imperdível  às quintas e domingos o Passeio lotava-se de gente elegante exibindo as últimas novidades trazidas pelos navios vindos da Europa. A banda municipal embalava os namoros, os flertes e o caminhar de um lado para outro dos passantes. 


O Passeio Público era um lugar para todos, mas separadamente.  O logradouro possuía três planos; entretanto não havia nenhuma determinação oficial reservando cada um para as três distintas classes sociais. O fato acabou acontecendo naturalmente, no dizer de cronistas da época.  Mais plausível considerar que essa separação se deu por força do segregacionismo social já existente, mas então reforçado pela modernização em curso, que conferia às elites a primazia dos espaços públicos ora embelezados.

1° Plano do Passeio Público, denominado Avenida Caio Prado
 
Assim o primeiro plano, o mais bonito, ficou como palco para deleite das elites, enquanto o segundo e o terceiro foram ocupados, respectivamente, pelas camadas médias e populares. Desses três planos, apenas o primeiro resta atualmente. O logradouro manteve sua importância enquanto área de lazer e sociabilidade até os anos 30, quando começou a sofrer concorrência de outras atrações ligadas ao entretenimento, como o cinema, os clubes e os banhos de mar. Seu esvaziamento se completou à medida que o centro, daquela década em diante, tornou-se basicamente área comercial, forçando o deslocamento das elites e classe média para outros bairros da cidade.

Avenida Carapinima, correspondente ao 2° Plano do Passeio Público
 
Se o processo de remodelação de Fortaleza tinha como exemplo Paris – a metrópole mais civilizada e charmosa do século XIX, e se uma das marcas registradas desta eram os cafés, onde modernos e literatos celebravam a alegria de viver daqueles tempos, então a capital cearense deveria tê-los também. 

Café Iracema, em 1908 foto do Álbum de Vistas do Ceará

Desta forma, não foi à toa que na década de 80 quatro elegantes cafés, em estilo chalet francês, surgiram nos quatro cantos da Praça do Ferreira, o principal logradouro desde a primeira metade do século XIX. Em seu entorno estavam os principais estabelecimentos comerciais, repartições públicas e o terminal dos bondes.

 fotos do Arquivo Nirez
extraído do artigo Belle Epoque em Fortaleza: remodelação e controle
de Sebastião Rogério Ponte
publicado no livro Uma Nova História do Ceará  

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Modernização e Adversidade Climática


Casa residencial na Avenida Visconde de Cauípe
 
Os anseios por modernização em Fortaleza começaram a se materializar ainda no final do século XIX.  A partir das décadas de 60 e 70 o perfil da cidade começa a sofrer alterações. Na década de 60 surgem o Lazareto da lagoa Funda e a Santa Casa de Misericórdia, para zelarem pela saúde pública, pois como ressaltava o saber médico social da época, sem homens sadios para o trabalho, não haveria produção de riquezas nem progresso.

  A Santa Casa foi inaugurada a princípio com 80 leitos e tinha como mantenedora a Irmandade Beneficente da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza. O Dr. Joaquim Antônio Ribeiro foi o primeiro médico nomeado para trabalhar na Santa Casa, em 12 março de 1861.
 
Na década seguinte, em 1870, a remodelação prosseguia com a instalação da ferrovia para Baturité, a construção de um novo cemitério, a criação da Academia Francesa, a iluminação a gás e o plano urbanístico de Adolfo Herbster.
A inauguração da Estrada de Ferro Baturité, em 1873, agilizando o transporte do algodão e de pessoas para a cidade, consolidou a hegemonia econômica de Fortaleza. Estreitando a distância e a dependência do interior com a capital, o trem, um dos principais produtos do avanço tecnológico do século XIX, reforçou mais ainda os resultados positivos dos efeitos sociais do progresso.

A Estação Central da Estrada de Ferro de Baturité foi inaugurada no dia 30 de novembro de 1873 e no dia 9 de junho de 1880, ela seria reinaugurada depois de passar por alterações definitivas

A edificação de um novo cemitério – o São João Batista, em 1872 – em local mais afastado (Jacarecanga), justificou-se pela pressão médica de suprimir a necrópole anterior, o São Casimiro, que comprometia o estado sanitário urbano por achar-se muito próximo (na Praça da Estação) do perímetro central, além de ter sepultado vítimas da epidemia de cólera, ocorrida entre 1862 e 1864. Pouco depois seria a vez de alcoólatras, loucos e meretrizes, acusados de potencialmente perigosos á saúde e à segurança pública, serem também confinados fora da região central.
  
 Capela do cemitério São João Batista ainda em construção
 
O novo cemitério logo seria povoado com exuberantes sepulturas em estilo gótico e refinadas esculturas importadas de anjos e figuras melancólicas. Nesse sentido o São João Batista revela tanto a imponência da arte cemiterial da época, como o poderio dos setores dominantes.  Também na cidade dos vivos, essa consagração econômica evidenciava-se através do surgimento de suntuosos sobrados e palacetes. Ostentando estilos em voga na Europa, estas novas construções tomavam o lugar do casario modesto, desenhando um novo rosto para a cidade. 
A iluminação a gás carbônico, por sua vez, substituindo a de azeite de peixe, deu mais vida e sociabilidade às noites fortalezenses, fazendo com que a população fosse dormir mais tarde. Por motivos de economia, por algum tempo estabeleceu-se o costume de não acender os lampiões em noite de lua cheia.

 Avenida Alberto Nepomuceno
 
A cidade se expandia visivelmente. Para disciplinar seu crescimento espacial foi contratado pelo governo cearense o engenheiro Adolfo Herbster, que em 1875 elaborou a “Planta Topográfica de Fortaleza e Subúrbios”. Atualizando o sistema de traçado urbano na forma de xadrez esboçado por Silva Paulet em 1818, o plano urbanístico de Herbster estendia o alinhamento das ruas até os subúrbios, corrigindo becos e vias sinuosas; esse traçado retilíneo agilizava o fluxo de pedestres, veículos e mercadorias. Ao deixar a capital mais aberta e transparente, o plano dificultava possíveis ocorrências de revoltas e distúrbios, facilitando o controle dos poderes públicos sobre a cidade.

 Avenida Dom Manuel, antigo boulevard da Conceição
 
O plano de Herbster incluiu ainda a abertura de três avenidas (as atuais avenidas do Imperador, Duque de Caxias e Dom Manuel), circundando o perímetro central;  o engenheiro projetou ainda um conjunto de obras públicas, entre as quais o edifício que iria sediar a  Assembleia Provincial, em 1871, em estilo neoclássico. 

 edifício da Assembleia Provincial, onde funciona atualmente o Museu do Ceará
 
A devastadora seca de 1877-1879 interrompeu temporariamente esse fluxo modernizador que se instaurava na cidade. Além de desestabilizar a economia cearense e provocar intenso êxodo rural  para a capital, a longa estiagem possibilitou a propagação de uma fulminante epidemia de varíola, vitimando mais da metade dos 100 mil retirantes amontoados em abarracamentos providenciados pelo governo na periferia de Fortaleza. 

 retirantes da seca de 1877 (foto do google)
 
Ao longo desses três anos, com a capital assistindo ao féretro diário de centenas de mortos, a cidade tomou-se de pavor e pesar, não existindo clima para que grandes obras ou novidades fossem patrocinadas.
Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desolação. A tristeza e o luto entravam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas a feição de uma terra abandonada.
A cidade não estava preparada para tamanha calamidade. O Lazareto da Lagoa Funda, edificado em 1856 para confinar doentes contagiosos, só dispunha de 300 leitos e os acometidos pela varíola eram milhares. 

O auge daquele teatro de horrores foi o dia 10 de dezembro de 1878, quando o cemitério do Lazareto recebeu 1004 vitimas da epidemia, ficando por muito tempo na memória da cidade como “O Dia dos Mil Mortos”. O medo alastrou-se no seio da população nativa, sobretudo quando a varíola vitimou a esposa do presidente da província. A partir desse fato ninguém mais se considerou a salvo, mesmo na área urbana mais protegida.
O repulsivo e perigoso trabalho de transportar os cadáveres dos abarracamentos até o cemitério do Lazareto, só encontrou aceitação entre aqueles que compunham o crescente contingente de miseráveis produzidos pelo crescimento econômico excludente. Afora a diária de mil réis e comida, os voluntários exigiram também o fornecimento de aguardente para poderem encarar semelhante tarefa.

extraído do artigo de Sebastião Rogério Ponte
A Belle Epoque em Fortaleza: remodelação e controle
publicado no livro  Uma Nova História do Ceará 
fotos do arquivo Nirez

terça-feira, 14 de maio de 2013

Em Nome da Moral e dos Bons Costumes

Rua Barão do Rio Branco, a antiga Rua Formosa

Na década de 1940, as pensões alegres situavam-se no centro da cidade, de preferência no andar superior de velhos casarões, vizinhos ou próximos a casas comerciais. A polícia realizava rondas frequentes nas ruas mais procuradas pelos boêmios. 
Para os de mais recursos, havia os motéis ambulantes  com os carros de praça, os automóveis dos postos Mazine, Vitória, Nove e Pará, da Praça do Ferreira.  Mediante pagamento de uma boa gorjeta, os motoristas levavam os casais à Praia do Futuro, então sem asfalto e sem risco de assalto. Ficavam fumando, sentados numa pedra, num monte de areia contando as estrelas no céu, enquanto o banco traseiro do carro servia de quarto de motel. Era incômodo, as moças ficavam “faladas”, mas ninguém deixava de namorar por causa disso.  A polícia agia com frequência no contraditório combate à prostituição, que não podia nem seria compensador extinguir.
Além do mais “a caça” era dirigida aos desregrados, aos alcoólatras, e às mulheres tuberculosas. Na Coréia, um dos bairros miseráveis localizados na Volta da Jurema, situavam-se vários cabarés,  um deles, chamado de ”coaça”, estava localizado bem próximo aos grandes clubes e a belas residências. Ali na Coréia, em casas toscas habitavam mundanas, maconheiros, ladrões e criminosos “procurados”. 

 a desaparecida Rua Franco Rabelo, zona de prostituição no Arraial Moura Brasil

Em outros bairros da periferia, aumentavam as reclamações contra os prostibulos. Em Porangabuçu e no Campo do Pio também residiam mulheres suspeitas, que costumavam ser apanhadas por rapazes em automóveis, muitas vezes dirigindo embriagados. O Arraial Moura Brasil representava uma das zonas perigosas, bem próximo ao centro, onde crianças e adolescentes conviviam com prostitutas.  Calculava-se em cerca de 800 prostitutas  no bairro, também conhecidas como as 'mulheres do curral", onde a água escorria pelo calçamento e poucos casebres dispunham de sanitários. 
Nas proximidades do Estádio Presidente Vargas, na Rua Marechal Deodoro, as casas suspeitas animavam as noitadas de pândega, gerando protestos contra a gritaria e a bebedeiras, com as mulheres em trajes inadequados. No Cercado Zé Padre, nas ruas desertas e escuras, também se encontravam mocinhas prostituídas.  

 Carro de Polícia, chamado popularmente de "Madalena"
 
Em 1947 anunciou-se uma medida saneadora. O secretário de Polícia comprometeu-se a sanear moralmente o trecho central da cidade que servia de zona livre. A intenção de transferir a prostituição para locais distantes do Centro, apesar de ser prioritária, foi sendo protelada pelas circunstâncias problemáticas que envolviam diferentes opiniões e ameaçavam uma segura fonte de renda para seus agenciadores.  Na surdina, as autoridades policiais tinham um pacto com o meretrício. Enquanto isso, em quarteirões inteiros das ruas do Centro, como a Barão do Rio Branco, Major Facundo,  Sena Madureira, Pessoa Anta e na vizinhança dos clubes elegantes, pontilhavam as alegres pensões.


Rua Floriano Peixoto, início do século XX
 
Até as tradicionais retratas, que anteriormente representavam um dos principais meios de animação popular, realizadas em praça pública, iam perdendo seu significado, pois afetavam os interesses e a tradição das "boas famílias". Em 1948 tentou-se reativar as retretas do Passeio Público, mas as recatadas senhoras sentiam-se inseguras na outrora concorrida praça, em razão da vizinhança de cabarés e casas suspeitas.   
Até mesmo as casas populares mantidas pela Legião Brasileira de Assistência (LBA) eram denunciadas por serem  utilizadas por meretrizes que recebiam proteção de pessoas de recursos. A resposta da LBA aos ataques agravou a situação, decidindo vender as casas e lançando diversas famílias ao desabrigo.  A Delegacia de Ordem Política e Social organizou uma campanha contra o meretrício, mas o próprio jornal defensor da medida em defesa da moral pública (O Nordeste), reconhecia os exageros cometidos.

 Nas proximidades do velho farol do Mucuripe, instalou-se uma das principais zonas de prostituição de Fortaleza (foto do blog)

Em 1952, na zona portuária do Mucuripe cerca de 600 mulheres foram ameaçadas de despejo pela Secretaria de Polícia, pois algumas famílias exigiam a transferência dos prostíbulos pra outros locais. 
A decantada defesa da moral pública, o combate à prostituição e malandragem criou um clima de medo constante nos bairros pobres. O “regime da lata”, ou seja, o trabalho gratuito e forçado dos presos em obras públicas foi uma imposição do secretário de Segurança Cordeiro Neto, que ganhou prestígio e foi eleito prefeito da cidade. 

 Rua Major Facundo, início do século XX

Conta-se que certa vez a Polícia recolheu alguns homossexuais que vadiavam pelas ruas de Fortaleza e os condenou ao “regime da lata”. Eles passaram pela Praça do Ferreira, num caminhão da polícia, rumo à tarefa que lhes fora imposta. Na Praça do Ferreira, naturalmente, levaram a maior vaia. Um dos presos, um negro alto, forte e largo como um armário, que destoava no meio dos rapazes, reagiu às vaias distribuindo “bananas” e explicando com orgulho: Não sou veado, eu sou é ladrão.


fotos do Arquivo Nirez
Extraído do texto de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Fortaleza, cultura e lazer (1945-1960)
Publicado no livro Uma Nova História do Ceará. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Praça Portugal


 Em 1971 a Praça Portugal já se destacava na região da Aldeota (foto do Arquivo Nirez)

A criação da Praça Portugal foi autorizada na administração do procurador fiscal Jorge Moreira da Rocha à frente da Prefeitura de Fortaleza entre abril e dezembro de 1947. A oficialização do ato se deu pelo Decreto-lei n° 202, de 23 de maio de 1947. As constantes ingerências dos urbanistas no sentido de descentralizar Fortaleza, ampliando seus limites para além do traçado xadrez original, e a constatação de que os novos tempos haviam tornado esses limites insustentáveis, levaram os administradores  a partir para execução da proposta do Plano Saboia Ribeiro. 

 Primeira planta da Praça Portugal, quando ainda era denominada Nunes Weyne. (do livro Praça Portugal)

O local escolhido foi o loteamento Lydiápolis, num terreno adjacente ao que seria construída a Praça Nunes Weine, em terrenos de propriedade de Antônio Cristalino Fernandes.  Desenhada em linhas simples, a primeira planta do local, já aprovada pela prefeitura, mostrava a conveniência da substituição do local da praça. A planta mostra ainda os primórdios do que viriam a ser as avenidas Desembargador Moreira (à época  Avenida Otto de Alencar) e Dom Luís, que se chamava Rua Farias Brito, localizando-se a Praça Nunes Weine no cruzamento de ambas. 

 A praça passou pela primeira reforma em 1980, quando o lago ganhou um mural com uma caravela portuguesa (foto do livro Praça Portugal)

No meio do areal e do descampado que caracterizava a Aldeota daquele tempo, a 700 metros do mar, com veredas abertas precariamente entre coqueiros e cajueiros, a praça se impunha como um dos espaços livres pensados por Saboia Ribeiro para o lazer dos futuros moradores da região.
Mas a Praça Portugal só foi inaugurada no dia 6 de abril de 1968, na gestão do prefeito José Walter Cavalcante, ocupando uma área de 13.440m². Foi construída pela SUMOV (Superintendência Municipal de Obras e Viação), ostentando um lago artificial e um grande obelisco. A praça contava ainda com uma fonte, uma ponte, postes e bancos. 

   Inauguração da Praça Portugal com a presença de autoridades e a benção do Padre Amarílio, da Paróquia da Paz (do livro Praça Portugal)

A colônia portuguesa que à época da inauguração era reduzida, com pouco mais de duas centenas de representantes, se fez presente ao evento, tendo a frente o Vice-cônsul Alexandre Vidal.  Durante a construção, empresários portugueses aqui estabelecidos doaram material para a obra e contribuíram financeiramente para sua construção. 
Diferentemente da maioria das praças cearenses, a Praça Portugal foi desenhada em formato circular, remetendo de imediato, a função de uma rotatória. O engenheiro Lauro Lopes garante que não era este o objetivo, mas sim o de ser uma verdadeira praça, e naquela época, naquele local, não se justificava esforços adicionais de disciplinamento. 

 A Praça e seu entorno no início dos anos 90 (foto do  livro Praça Portugal)

A construção de uma fonte luminosa no final da década, ligada nos finais de semana, representou um novo atrativo da praça, em volta da qual moradores e visitantes estacionavam seus automóveis. Por um ou dois anos a Paróquia da Paz celebrou a Missa do Galo na Praça Portugal. O trânsito de veículos era tão reduzido, que os motoristas não viam impedimento em evitar contornar a praça e cortar caminho realizando curvas à esquerda para retomar as avenidas. 


Na foto da década de 90, A Praça com seu entorno já bastante modificado e o Shoping Aldeota sendo construído. (foto do livro Praça Portugal)
  
É possível que a praça tenha exercido uma colaboração direta para o crescimento da Aldeota ao longo da década de 70, atuando como elemento de polarização e atraindo residências para o seu entorno.  O Plano Diretor de Fortaleza elaborado em 1979, na administração do prefeito Lúcio Alcântara, iria modificar esse perfil ao permitir a criação de um centro comercial na área. Como um inesperado efeito colateral, tal decisão influiu para o progressivo esvaziamento do tradicional centro da cidade.  

extraído do livro
Praça Portugal - um laço entre Portugal e o Ceará
de Ângela Barros Leal
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